01 agosto 2010

take a drink with me .


já é fim de noite e eu continuo em casa, sozinha. ninguém para estar comigo, ninguém com quem eu possa contar. as pessoas simplesmente fogem de mim ou eu que as espanto com todo meu cinismo e egocentrismo?
olho em volta e não consigo prender minha atenção a nada mais do que à garrafa a minha frente. é como se ela me chamasse, com a vaga promessa de me fazer esquecer dos problemas. não resisto, sabendo que ela não é uma amiga, mas a mais vil das inimigas. digo para mim mesma que é apenas um gole, que não poderia ser tão ruim assim.
pego um cálice, sirvo-me de uma pequena quantidade. apesar da rápida sensação de torpor, consigo sentir todo amargor passando por minha garganta, proporcionado não somente pelo próprio sabor da bebida, mas também de minha vida.
começo a me lembrar de todas as decisões erradas que já tomei, do que poderia ter sido se não tivesse cometido tantos erros comigo e com outras pessoas até, do sofrimento que podia tê-las poupado por ser tão egoísta. vejo-me enchendo mais um cálice e tomando-o com tanta rapidez que chego a me impressionar.
lembro-me dos amores perdidos, das juras mal feitas e dos sentimentos mascarados: eu os fingia tão bem que às vezes conseguia me enganar com aquilo que falsamente sentia. outro cálice despejado na minha boca. eu enganei  inescrupulosamente aqueles que queria a minha volta, visando apenas o meu bem, os meus desejos, as minhas vontades. por mim, não importava se eles estavam sofrendo pelos atos que eu cometia: estavam comigo e era isso que me bastava.
a bebida se esvaia com rapidez, que eu não conseguia controlar. cada cálice me fazia lembrar de momentos da minha vida, aqueles que eu me forçava a enganar que tenham existido e que agora eram meus únicos companheiros. é fato que coisas limpas não se misturam com as sujas, então aquilo era o que me restava, nada mais e havia de me conformar.
a essa altura, não tinha mais motivos para beber e nem sabia onde iria chegar com isso. simplesmente ia colocando mais e mais bebida para dentro do cálice, uma vez que se esvaziava. nem ao mesmo conseguia mais distinguir o gosto daquilo que bebia; poderia ser o que for que não ultrapassaria a ardência que meu passado vindo a tona me causava.
já estava caída no chão, uma das mãos segurava o que restava na bebida, pouquíssima coisa por sinal. o braço agarrava-se com firmeza à garrafa, que já estava vazia. não era só ela que estava vazia por dentro, mas eu também. o último sinal de humanidade que ainda restava em mim estava indo embora com o último gole.

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